Os Cristãos e a Prática da Misericórdia

Lição 9 · 4º Trimestre 2026 · 15/11/2026 · 20 min de leitura

Por Equipe Marcas Editora

Capa da aula: Os Cristãos e a Prática da Misericórdia
Estreia Domingo, 15 de novembro · 10:00

TEXTO ÁUREO

“Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.” (Is 1.17)

Deus recusou o jejum de um povo que orava e passava reto pelo necessitado. A lição segue a misericórdia e a justiça pela Lei, pelos profetas, por Jesus e pela Igreja de Atos, mostra que cuidar do próximo não substitui a pregação nem compra bênção, e ensina o adolescente a agir junto com a família e a igreja, sem se colocar em risco.

Imagine um culto impecável. Louvor afinado, gente de joelhos, jejum marcado no calendário, ninguém faltando. Agora imagine Deus olhando para esse culto e dizendo: não foi isso que eu pedi.

Foi o que aconteceu em Isaías 58. O povo de Judá jejuava e ainda reclamava com Deus: "Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes?" (Is 58.3). E a resposta de Deus não falou de jejum. Falou de corrente, de pão, de casa e de roupa:

"Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?" (Is 58.6,7).

Repare na última frase: "não te escondas da tua carne". Carne, aqui, é gente. É o seu semelhante, feito do mesmo barro que você. Deus está dizendo: não finja que não viu a pessoa que está na sua frente.

O texto áureo vai na mesma direção:

"Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas" (Is 1.17).

Comece pelo primeiro verbo: aprendei. Misericórdia se aprende. Ninguém nasce sabendo olhar para o lado.

Na lição passada, o assunto foi o mandamento do amor ao próximo. Hoje a pergunta fica mais concreta: o que esse amor faz, com as mãos, por quem está passando necessidade? A Bíblia chama isso de misericórdia. E, quando o cuidado com o fraco vira regra para um povo inteiro, ela chama de justiça.

Três coisas com todas as letras, antes de começar. Primeiro: misericórdia não compra nada de Deus, nem salvação, nem bênção. A gente pratica porque já recebeu misericórdia primeiro. Segundo: este assunto não é de partido nenhum. Está na Lei, nos profetas, na boca de Jesus e na vida da Igreja Primitiva, e é pela Bíblia que a gente vai tratá-lo. Terceiro: misericórdia de adolescente não é ir sozinho para a rua, abordar desconhecido ou entrar na casa de quem você não conhece. É agir junto com a família, com a igreja e com um adulto responsável. Isso volta no tópico III.

E guarde uma pergunta, porque a aula volta nela até o fim: de quem você tem desviado o olhar?

I — O Princípio da Misericórdia e da Justiça no Antigo Testamento

Começa em quem Deus é

Antes de ser uma regra, justiça e misericórdia são o jeito de Deus ser. Moisés cantou assim:

"Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é" (Dt 32.4).

E o salmista juntou as duas coisas na mesma linha: "Piedoso é o SENHOR e justo; o nosso Deus tem misericórdia" (Sl 116.5). Deus não precisa escolher entre ser justo e ser misericordioso. Ele é as duas coisas ao mesmo tempo.

Isso muda o jeito de ler o resto da Bíblia. Quando Deus manda o povo dEle fazer justiça e ter misericórdia, Ele não está pedindo uma coisa que Ele mesmo não faz. Está pedindo que os filhos se pareçam com o Pai.

A Lei nomeou quem não tinha ninguém

Quando Deus deu a Lei a Israel por meio de Moisés, Ele não falou dos "pobres" de um jeito genérico. Deu nome a quatro grupos: o órfão, a viúva, o servo e o estrangeiro. E deu um motivo que pega de verdade:

"Também não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito" (Êx 23.9).

Deus usou a memória da dor do próprio povo como argumento. Vocês sabem como é. Lembrem.

E a Lei mostra o próprio Deus fazendo aquilo que manda: Ele "faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa" (Dt 10.18). Proibia torcer o direito do estrangeiro e do órfão e tomar como penhor a roupa da viúva (Dt 24.17), e chegava a declarar maldito quem fizesse isso (Dt 27.19). Exigia juízes que julgassem com retidão e balança honesta no comércio (Lv 19.35,36; Dt 25.1). A misericórdia não ficava na intenção. Entrava no tribunal, no dinheiro e na feira.

🏛 Curiosidade — o parente que faltava. No mundo antigo, quem defendia uma pessoa num conflito era a família: o pai, o irmão mais velho, o clã. O órfão, a viúva e o estrangeiro tinham uma coisa em comum: quase nunca havia alguém da família com força para defender a causa deles. Por isso a Lei não estava sendo "boazinha". Estava colocando Deus no lugar do parente que faltava. É assim que um salmo O chama: "Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo" (Sl 68.5).

A colheita das beiradas

Uma das leis mais bonitas sobre o assunto está no meio de Levítico, e quase ninguém repara nela:

"Quando também fizerdes a colheita da vossa terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua sega. Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR vosso Deus" (Lv 19.9,10).

O agricultor deixava de propósito as beiradas do campo e o que caía no chão (Lv 23.22 repete a ordem). E repare no desenho disso: não era esmola entregue na mão, na frente de todo mundo. O pobre ia ao campo e colhia ele mesmo. Trabalhava pelo que comia e não passava vergonha. É exatamente assim que Rute, a viúva estrangeira, sustentou a sogra, colhendo espigas atrás dos segadores no campo de Boaz (Rt 2.2,3).

A Lei já pensava em como a pessoa ia se sentir ao receber, e não só em ela receber alguma coisa. Ajudar de um jeito que humilha não é o jeito de Deus.

Quando o culto e a vida se separaram

Com o tempo, o povo de Israel fez uma coisa perigosa: manteve o culto em dia e largou o necessitado na porta. Foi aí que os profetas levantaram a voz.

Jeremias viu o povo entrando no templo como se estivesse tudo bem, enquanto oprimia o estrangeiro, o órfão e a viúva do lado de fora (Jr 7.3-11). Amós foi ainda mais duro: em nome de Deus, disse que o Senhor aborrecia as festas religiosas do povo e não queria mais ouvir os cânticos deles (Am 5.21-23). E deu a saída:

"Corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça como o ribeiro impetuoso" (Am 5.24).

O problema não era falta de culto. Era a mesma pessoa cantando no culto e sendo injusta com o pobre na mesma semana. Dá para ter culto impecável e ser rejeitado por Deus. Essa é a advertência mais séria desta lição.

Isaías 58 é a mesma conversa. O povo jejuava, mas no dia do jejum buscava o próprio interesse, exigia todo o trabalho dos outros e vivia em contendas e brigas (Is 58.3,4). Deus perguntou se jejum era só isto: "que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco, e estenda debaixo de si saco e cinza" (Is 58.5). Cabeça baixa por fora, coração duro por dentro. E Deus respondeu com a lista que você já leu: soltar o jugo, repartir o pão, recolher o abandonado, cobrir o nu.

Repare que Deus não aboliu o jejum. Jesus mesmo ensinou sobre jejuar (Mt 6.16-18). O que Deus recusou foi o jejum separado da vida.

O profeta Miqueias resumiu tudo numa frase que cabe no bolso:

"Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?" (Mq 6.8).

אב No original — hebraico. A palavra traduzida por "benignidade" em Miqueias 6.8 é hesed, uma das palavras mais ricas do Antigo Testamento. Fala de bondade leal, do amor que não desiste, o mesmo amor fiel que Deus tem pela aliança com o Seu povo. Repare no verbo: Deus não pede só que você faça um ato de bondade de vez em quando. Pede que você ame a bondade, que goste de praticá-la.

E as promessas de Isaías 58?

Depois da lista, vêm promessas lindas:

"Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda" (Is 58.8).

E mais: "E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam" (Is 58.10,11).

🕊 A nossa leitura — promessa não é contrato. Tem gente que lê Isaías 58 como negócio: "dou cesta básica e Deus me enriquece". Não é isso. Essas promessas falam de um povo restaurado na comunhão com Deus, de luz, de direção e de ruínas reconstruídas (Is 58.12). Não são um preço que Deus paga por boas obras. A salvação é "pela graça", por meio da fé, e "não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8,9). As obras vêm depois, como fruto: "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef 2.10). Misericórdia não é moeda para comprar bênção. É o que a graça produz em quem foi alcançado por ela.

II — O Princípio da Misericórdia e da Justiça no Novo Testamento

Jesus não mudou de assunto

Quando Jesus chegou, Ele não trocou o assunto dos profetas. Aprofundou. Logo no começo do Sermão do Monte, duas bem-aventuranças aparecem uma atrás da outra: os que têm fome e sede de justiça serão fartos (Mt 5.6), e:

"Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia" (Mt 5.7).

Justiça e misericórdia, juntas de novo, como em Deuteronômio e no Salmo 116.

E Jesus viveu isso numa cena só. Trouxeram a Ele uma mulher apanhada em adultério, querendo que Ele a condenasse (Jo 8.3-6). Jesus não fingiu que o pecado não existia, e também não se juntou aos acusadores. No fim, disse a ela: "Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais" (Jo 8.11). Misericórdia que acolhe e justiça que chama o pecado pelo nome, na mesma frase.

Os Evangelhos mostram Jesus perto dos mais desprezados: publicanos e pecadores chegavam perto para ouvi-lo (Lc 15.1). E quando Ele abriu o livro de Isaías na sinagoga de Nazaré, leu que tinha vindo anunciar o Evangelho aos pobres e liberdade aos cativos (Lc 4.16-21).

O texto mais sério sobre o assunto

Em Mateus 25, Jesus descreve o dia em que o Filho do Homem virá na sua glória. Ele separa as ovelhas dos bodes, e diz às que estão à sua direita:

"Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes me ver" (Mt 25.34-36).

Seis coisas comuns: comida, água, acolhida, roupa, visita ao doente, visita ao preso. Nenhuma exige ser famoso nem rico. Os justos ficam surpresos: "Senhor, quando te vimos com fome?" E vem a frase que muda o peso de tudo:

"Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25.40).

Jesus se identifica pessoalmente com quem está passando necessidade. O que você faz com essa pessoa, segundo Ele, você está fazendo com Ele. E o que você deixa de fazer também (Mt 25.45).

Atenção a um detalhe, para não ler o texto ao contrário. As ovelhas não viram ovelhas por causa das obras. Elas já são "benditos de meu Pai", e recebem o reino como herança, e herança não se compra: se recebe. As obras não compram o lugar delas. Mostram de quem elas são.

A Igreja Primitiva organizou o cuidado

A Igreja em Jerusalém levou isso a sério desde o começo. Os irmãos vendiam o que tinham e repartiam com todos, de acordo com a necessidade de cada um (At 2.44,45), e perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2.42).

E logo apareceu um problema. "Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano" (At 6.1). As viúvas dos judeus que falavam grego, que tinham vindo de fora, estavam sendo esquecidas na distribuição de comida. A igreja não fingiu que era coisa pequena. Os apóstolos reuniram a multidão e disseram:

"Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre esta necessidade" (At 6.3).

Sete homens cheios do Espírito Santo... para servir comida. A igreja colocou gente da melhor qualidade espiritual para cuidar de viúvas. Um deles era Estêvão, que pouco depois pregou um dos maiores sermões de Atos (At 7).

E os apóstolos não largaram a pregação para isso: "Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra" (At 6.4). Organizaram a igreja para dar conta das duas coisas. O resultado veio logo em seguida: "E crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé" (At 6.7).

Tiago e Paulo continuam a linha

Tiago definiu religião verdadeira com dois verbos práticos:

"A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se incontaminado do mundo" (Tg 1.27).

Repare no equilíbrio: cuidar de quem sofre e guardar a própria vida do pecado. Uma coisa não dispensa a outra. Naquele tempo, a viúva quase não tinha como se sustentar, e o órfão não tinha quem o defendesse. Visitá-los era se envolver com a dor deles.

Paulo também tratou do assunto. Ensinou Timóteo a cuidar das viúvas que estavam realmente desamparadas (1 Tm 5.3,16) e recolheu uma oferta entre as igrejas para os irmãos pobres de Jerusalém (Rm 15.26). Do Antigo ao Novo Testamento, a linha é a mesma.

אב No original — grego. Quando Jesus fala de "esmola" em Mateus 6, a palavra grega é eleēmosýnē, que vem de éleos, a palavra para misericórdia. Esmola, no sentido bíblico, é literalmente "um ato de misericórdia". E Jesus ensinou como fazer: "Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita" (Mt 6.3). Misericórdia de verdade não precisa de plateia, nem de foto.

III — A Prioridade é a Pregação do Evangelho

Dois erros, um de cada lado

Quando se fala deste assunto, dá para errar para os dois lados.

O primeiro erro é o que a lição combateu até aqui: separar a fé da prática. Achar que basta ir ao culto, cantar, orar e estar com a frequência em dia, enquanto se passa reto por quem precisa. Foi o erro do povo de Isaías 58.

O segundo erro é o contrário, e é igualmente grave: transformar a Igreja numa organização qualquer de ajuda, que distribui comida e esqueceu de anunciar Cristo. A missão da Igreja tem nome, e foi Jesus quem deu:

"Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura" (Mc 16.15).

A missão é anunciar o Evangelho, ensinar a Palavra e fazer discípulos (Mt 28.19,20). Isso porque existe um problema que só o Evangelho resolve: o pecado, que separa a pessoa de Deus. Dar comida a quem tem fome é bom e é mandamento. Mas ninguém é salvo por ter sido bem alimentado. Só Jesus salva.

O auxílio da revista ajuda a separar as coisas: o objetivo da Igreja é a glória de Deus e a salvação das pessoas; as tarefas para chegar lá são muitas, e o socorro ao necessitado é uma delas. A misericórdia não ocupa o lugar da pregação. E a pregação não dispensa a misericórdia.

A fé que aparece do lado de fora

Tiago usa um exemplo que não deixa ninguém escapar:

"E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma" (Tg 2.15-17).

Palavra bonita que não vira gesto não aquece ninguém. E Paulo põe a ordem do jeito certo:

"Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé" (Gl 6.10).

"A todos": ninguém fica de fora por ser de outra religião, de outro lugar ou de outra condição. "Principalmente aos domésticos da fé": começa pela família da igreja, pelo irmão que senta do seu lado no banco.

Por isso a frase desta lição é esta: a misericórdia é a prática da nossa pregação. Não é o lugar da pregação. É a prova dela. Quem diz que Deus ama e passa reto por quem precisa está desmentindo o próprio sermão com o comportamento. As pessoas entendem melhor o Evangelho quando ele vem junto com amor que se vê.

E tem uma coisa que você talvez nunca tenha pensado: você já faz parte disso. A oferta que a sua igreja recolhe ajuda a sustentar a obra, os missionários e muita gente em situação difícil. Você nem sempre vê a ponta de lá, mas está nela.

Misericórdia do tamanho de um adolescente

Então, na prática, o que um adolescente de 13 ou 14 anos faz com tudo isso? Muita coisa, e quase tudo junto com outras pessoas.

  • Com a família e a igreja. Entrar na campanha de alimentos ou de agasalhos da igreja, ajudar a separar roupa e montar cestas, ir com os pais visitar um irmão idoso, doente ou que perdeu alguém. Tiago chamou isso de religião pura: visitar "nas suas tribulações".
  • Na escola, sem plateia. O colega que chega sem lanche e diz que não está com fome. Dividir o seu, sem chamar atenção e sem comentar com ninguém, é misericórdia. Expor o colega, contar para a turma ou postar sobre ele é humilhação. E se a necessidade se repete, avise um adulto, como o professor ou a coordenação, porque o adulto tem como ajudar a família de um jeito que você não tem.
  • Na rua, só com um adulto. O homem sentado na calçada do seu caminho é gente, "a tua carne" (Is 58.7). Ele merece respeito, e você pode orar por ele todos os dias. Mas você não vai sozinho abordar quem está na rua, não sai à noite para fazer ação social por conta própria e não entra na casa de quem você não conhece. Se o seu coração ficou apertado por alguém, converse com os seus pais ou com o líder da igreja. Muitas igrejas têm um trabalho organizado para isso, e você pode entrar nele com quem é responsável.

❤ Para a sua vida — "fazei justiça ao órfão" não é mandar você para o confronto. Em Isaías 1.17, quem tratava da causa do órfão e da viúva eram os juízes e os anciãos da cidade, adultos com autoridade para isso. Para você, hoje, fazer justiça é não participar do que é injusto, não rir de quem está sendo humilhado e contar a um adulto de confiança quando vir alguém sendo maltratado, explorado ou passando fome: pai, mãe, quem cuida de você, o professor da EBD, o pastor, a coordenação da escola. Não vá tirar satisfação com quem faz o mal, nem com adulto nenhum. O adulto resolve; você avisa. E se quem está passando necessidade, ou sendo maltratado, é você, conte também. Pedir ajuda não é vergonha. Deus é "Pai de órfãos e juiz de viúvas" (Sl 68.5), e a igreja existe para cuidar uns dos outros.

Cristo na lição

Isaías 58.7 termina com uma frase que parece pequena: "não te escondas da tua carne". Agora olhe para o que Deus fez. Ele não se escondeu da nossa carne. Ele entrou nela:

"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14).

Cheio de graça e de verdade. Misericórdia e justiça, de novo juntas, agora numa pessoa.

Jesus foi o necessitado de Mateus 25. Nasceu sem lugar na hospedaria, viveu sem ter onde reclinar a cabeça, teve sede na cruz, foi despido e preso. E fez tudo isso por nós:

"Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis" (2 Co 8.9).

Na cruz, Ele carregou o juízo que era nosso, e por isso "a misericórdia triunfa do juízo" (Tg 2.13). Ao terceiro dia, ressuscitou. É isso que a Igreja anuncia com a boca e prova com as mãos.

Por isso a misericórdia cristã não nasce de esforço próprio nem de culpa. A gente socorre porque foi socorrido. Ama a misericórdia porque foi alcançado por ela. E Deus não nos deixa sozinhos nessa tarefa: o Espírito Santo, que encheu os sete de Atos 6, continua dando à Igreja dons de "socorros" (1 Co 12.28) e força para obedecer. A graça vem primeiro e nos capacita; nós respondemos, cada dia, decidindo não passar reto.

✝ Cristo na lição. Talvez você tenha descoberto hoje que tem passado reto por alguém há muito tempo. Jesus não passou reto por você. Ele viu, desceu, se fez carne e deu a vida. Se você ainda não conhece esse amor por dentro, ele começa com um sim a Jesus. Pode ser hoje. E se você já conhece, peça a Ele olhos para ver quem está do seu lado.

Aplicação Prática

Faça a lista dos invisíveis. Pense nos lugares por onde você passa toda semana: casa, escola, igreja, rua. Quem está ali precisando e você tem fingido não ver? Ore por essas pessoas pelo nome.

Entre no que a sua igreja já faz. Pergunte ao seu professor ou ao líder como funciona a ação social da igreja e em que um adolescente pode ajudar, junto com um adulto.

Ajude sem humilhar. Seja discreto. Nada de foto, post ou comentário sobre quem recebeu ajuda. Lembre das beiradas do campo: a dignidade da pessoa faz parte da misericórdia.

Não confunda as coisas. Ajudar não substitui falar de Jesus, e falar de Jesus não dispensa ajudar. Os dois andam juntos.

Visite alguém em tribulação, com um adulto. É a missão desta semana.

Oração Final

Senhor Jesus, obrigado porque Tu não Te escondeste da nossa carne. Tu Te fizeste carne, Te fizeste pobre por amor de nós e deste a Tua vida na cruz para nos alcançar com a Tua misericórdia. Perdoa-nos pelas vezes em que cantamos alto e passamos reto por quem precisava. Dá-nos olhos para ver quem está do nosso lado, em casa, na escola e na igreja, e mãos para servir com cuidado, sem humilhar ninguém. Guarda cada adolescente desta turma, e coloca adultos sábios ao lado deles em cada passo. Consola quem está passando necessidade agora, e não permitas que ninguém se sinta envergonhado. Enche-nos do Teu Espírito, para que a nossa vida confirme o Evangelho que anunciamos. Em Teu nome, amém.

Soli Deo Gloria — a Escritura governa; todo o resto, de joelho.

Perguntas Frequentes

O que é misericórdia, segundo a Bíblia?+

Misericórdia é ver a necessidade de alguém e fazer alguma coisa por essa pessoa, principalmente por quem não tem como devolver. Não é só sentir pena. É uma característica do próprio Deus: 'Piedoso é o SENHOR e justo; o nosso Deus tem misericórdia' (Sl 116.5). Jesus disse: 'Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia' (Mt 5.7). Quem recebeu a misericórdia de Deus em Cristo aprende a praticá-la.

O que significa o jejum que Deus escolheu, em Isaías 58?+

O povo de Judá jejuava e reclamava que Deus não via. Deus respondeu que o jejum que Ele escolheu inclui soltar quem está preso pela injustiça, repartir o pão com o faminto, recolher o pobre abandonado e cobrir quem está sem roupa (Is 58.6,7). O jejum não foi abolido: Deus recusou o jejum de quem orava e, ao mesmo tempo, passava reto pelo necessitado. Culto e vida não se separam.

Justiça social é assunto bíblico ou político?+

O cuidado com o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre está na Lei de Moisés, nos profetas, no ensino de Jesus e na prática da Igreja Primitiva (Dt 10.18; Is 1.17; Mt 25.35,36; At 6.1-7). É assunto bíblico. Mas a Bíblia não é programa de partido. O cristão responde a esse tema pela Palavra de Deus, e não por ideologia política de lado nenhum.

A igreja deve fazer ação social ou pregar o Evangelho?+

As duas coisas, cada uma no seu lugar. A missão da Igreja é anunciar Cristo e fazer discípulos (Mc 16.15), porque só o Evangelho resolve o problema do pecado. Mas a fé sem obras é morta (Tg 2.17). Em Atos 6, os apóstolos continuaram na oração e na Palavra e escolheram sete homens cheios do Espírito Santo para cuidar das viúvas. A misericórdia não ocupa o lugar da pregação: ela é a prova de que a pregação é verdadeira.

Fazer caridade salva? Ajudar os pobres garante bênção?+

Não. 'Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie' (Ef 2.8,9). As boas obras vêm depois, como fruto: 'somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras' (Ef 2.10). As promessas de Isaías 58.8-12 não são um contrato de 'dou para receber'. A gente pratica a misericórdia porque já foi alcançado por ela.

Como um adolescente pode praticar a misericórdia com segurança?+

Sempre junto com a família, com a igreja ou com um adulto responsável. Entrar na campanha de alimentos da igreja, ajudar a montar as cestas, visitar com os pais um irmão idoso ou doente, ser discreto com o colega que passa necessidade. Nunca ir sozinho abordar alguém na rua, sair à noite para isso ou entrar na casa de um desconhecido. E se você vir alguém sendo maltratado, não confronte: conte a um adulto de confiança no mesmo dia.

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